sábado, 18 de outubro de 2008

:: Um dos piores momentos depois que a minha mãe faleceu foi voltar pra casa sem ela e encontrar todas as coisinhas dela por lá. As roupas, os remédios, os potinhos de comida, tudo aquilo que de uma hora pra outra se tornou desnecessário e sem sentido. Foi muito, muito triste tirar as roupas dela dos armários, separar para doação e esvaziar cada gaveta.
:: Outro dia fui ao supermercado e vi uma senhora muito, muito velhinha fazendo compras. E eu sempre fico tocada quando vejo uma pessoa já de idade bem avançada, cheia de dificuldade em fazer as coisas mais simples. Antigamente, eu pensava: como vai ser quando a minha mãe ficar assim, bem velhinha, com dificuldades em fazer as coisas? Pena que não foi possível ver isso acontecer.
:: Perder os pais é a lei natural da vida. É o caminho natural da humanidade. Mas a sensação que eu tenho é que a minha mãe foi arrancada de mim e por isso é tão difícil transpor tudo isso. Um dia ela estava bem, com a saúde de sempre, ativa, preocupada com a filha do meio, correndo de um lado para o outro com as atividade do dia-a-dia. No outro ela estava num quarto de hospital, se preparando para uma cirurgia. Em seguida, estava em coma induzido, na UTI. E na semana seguinte, estava parada numa cama, sem movimentos em um lado do corpo, totalmente dependente de nós. Quatro meses depois, ela se foi. E ficamos aqui, sem compreender bem como é isso tudo aconteceu com a gente.
:: Talvez eu precise falar sobre essas lembranças ruins para expurgá-las, para digerí-las e torná-las pequenas perto de uma vida inteira de coisas boas que existem para serem lembradas. Em muitas famílias, falar sobre o ente querido que já se foi, costuma virar um tabu. Não que isso aconteça entre nós, mas acho que existe ainda uma ferida longe de estar cicatrizada. Tenho medo de trazer à tona algumas lembranças quando estamos juntos para evitar momentos tristes, para evitar as lágrimas e principalmente para não trazer de volta aquela angústia que vivemos. Mas, de repente, falta um pouco dessa terapia em grupo, falta expurgar esses sentimentos que cada um de nós guarda dentro de si para que possamos seguir adiante sem que haja sempre um peso no coração.
:: Quando minha mãe faleceu tive a certeza de que eu jamais iria me recuperar desse acontecimento. Já se passaram quase 6 anos e muitas lembranças da sua doença, do seu sofrimento, das nossas privações ainda permanecem fortes. Quando será que vai parar de doer? Ou melhor, será que um dia vai parar de doer? Eu não sei. Só sei que em alguns momentos da minha vida essas lembranças vêem fortes demais e eu não consigo segurar o choro. Passa... Vai embora... Que fiquem somente as lembranças boas, por favor.
:: Um dia, na casa do meu pai, encontei alguns documentos, receitas e bilhetes escritos pela minha mãe. E fiquei ali lendo aquelas palavras soltas em pedaços de papel já amarelados pelo tempo. Pude visualizá-la escrevendo cada uma daquelas letras. É doloroso perceber que esse tipo de detalhe é a única coisa física que restou dela.

sábado, 13 de setembro de 2008

:: Ontem era para minha mãe ter completado 67 anos. Ela nasceu no dia 12/09 e faleceu no dia 09/12. Curiosa essa relação de números. Dá a impressão de que a vida dela tinha uma trajetória que foi cumprida do início ao fim. Parabéns, mãe. Feliz aniversário.
:: Ontem foi aniversário da minha mãe. Ou melhor, teria sido, se ela estivesse aqui presente. Não me lembro de grandes comemoraçõe nos aniversários dela. Pra falar a verdade, acho que ela não fazia muita questão. Mas me lembro de um dia, quando eu era criança, ter inventado de fazer um bolo de aniversário pra ela, sozinha! Arrastei uma cadeira para pegar a batedeira em cima do armário, procurei uma receita no caderninho de receitas dela e separei os ingredientes. Na hora de colocar a mão na massa, fiz alguma interpretação errada da receita e a massa virou uma massaroca indefinida que eu tive que jogar fora. Que tristeza! Pior foi ter que explicar a bagunça na cozinha e os ingredientes perdidos...

domingo, 7 de setembro de 2008

:: Meus pais são nordestinos e migraram para São Paulo nos anos 70 em busca de uma vida melhor. Passados 30 anos de vida em São Paulo eles ainda mantinham um leve sotaque e muito da cultura do nordeste. Um dia desses, na agência em que eu trabalhava, um rapaz de origem nordestina falou: "vou pegar esse tamborete aqui". Na mesma hora viajei no tempo e ouvi a voz da minha mãe dizer: "Lene, me tráz aquele tamborete...". Saudades... Saudades de um vocabulário, de um jeito gostoso e engraçado de chamar as mais diversas coisas por nomes diferentes.

domingo, 31 de agosto de 2008

:: Um dia, durante o curto período em que ela ficou doente, ela me disse: "Cuida do seu pai! Ele vai ser o seu homem forte." Não, mãe. Ele não foi. Ele também desabou depois que você se foi. E me disse que a dor que ele sentia era maior do que a minha, maior que a de todo mundo. Fiquei indignada. Como poderia isso? Ele sabia o que era viver sem você, passou uma vida inteira neste mundo antes de te conhecer e de fazer parte da sua vida. Eu não. Eu existo por causa de você e até o dia em que você se foi, eu não sabia o que era não ter você perto de mim. Injusta essa comparação. A minha dor é indescritível.
:: As coisas que escrevo aqui são apenas lembranças de como a minha mãe era para mim. De como ela parecia, de como julgava as pessoas, a família e o mundo. De como encarava a vida sob a minha perspectiva, as minhas recordações. E, principamente, de como ela me tocou durante a sua vida. Com certeza ela foi uma outra mãe para a Na e ainda uma terceira mãe para a Neid. Que essas outras mães permaneçam sempre com elas. Eu tenho a minha aqui comigo.
Eu não posso entender
Essa vida tão injusta
Não vou fingir que já parou de doer
Mas um dia isso vai se acabar

Eu não consigo me convencer
Que essa vida não foi injusta
Tanta falta me faz você
Queria ver você em casa

Mãe
O amor que eu tenho por você é seu
Mãe
O amor que eu tenho por você é seu
Como é meu
O meu aniversário

(( Nando Reis ))

sábado, 30 de agosto de 2008

:: Quando eu era adolescente, inventei uma brincadeira boba. Toda vez que o telefone ou a campainha tocava eu dizia: “deve ser o Brad Pitt, meu namorado. Diga a ele que eu não estou!” e ria sozinha da piada. Um dia, minha mãe ficou bem séria e disse: “você precisa trazer esse tal de Brad aqui em casa pra eu conhecer!” Foi uma explosão de gargalhadas. Minha irmã chorava de tanto rir enquanto a minha mãe ficava com cara de quem não entendeu nada. Explicamos depois o por quê da brincadeira e ela nem se abalou.
:: Quando minha mãe faleceu eu também não estava junto com ela. Deus designou essa tarefa inglória para a minha irmã mais velha. No fundo, acho que foi bom. Não sei se minha cabeça iria agüentar. Quando cheguei ao local do ocorrido, ela já tinha partido. Nós duas sentamos ao lado do corpo e choramos abraçadas. Eu ainda procurava por algum sinal, um movimento, um sopro de vida. Nada disso aconteceu e a realidade se abateu sobre nós. Ela realmente não estava mais aqui.
:: A minha irmã mais velha sempre foi a preferida da minha mãe. Embora ela nunca reconhecesse isso e afirmasse que não fazia distinção entre as filhas, era muito clara a devoção que ela tinha pela Na. Mas depois que eu vim morar em Curitiba, as coisas mudaram um pouco e passei a ser mais paparicada. Toda vez que eu voltava pra casa, ela fazia as comidas que eu gostava, um bolo de chocolate só pra mim e eu era a rainha da casa. Imagina os ciúmes que a minha irmã não sentia!
:: Minha mãe dizia que não gostava de animais de estimação, mas por outro lado, também não gostava de judiar deles. Mentira... Tivemos uma infinidade de cachorros vira-latas e gatos vadios que eu e as minhas irmãs insistíamos em trazer pra casa. E sempre acontecia de um dia ela falar toda orgulhosa: “esses bichos gostam mesmo de mim! É claro! Eu cuido deles e vocês não”. Eu ria por dentro ao perceber que ela não queria dar o braço a torcer.
:: Aliás, a noite em que a minha mãe foi internada, foi a noite mais triste da minha vida. Eu estava em casa cuidando dos meus sobrinhos e me tranquei no banheiro para chorar. Quando meu pai e minha irmã voltaram sozinhos do hospital, ele sentou-se à mesa da cozinha e chorou como uma criança. Nunca vou me esquecer dessa cena.
:: Quando minha mãe foi internada às pressas, eu não estava junto com ela. Meu pai e minha irmã mais velha a levaram ao hospital e eu fiquei em casa cuidando dos meus sobrinhos. Como ela teve que ficar na UTI em observação, todos os objetos pessoais dela ficaram com a minha irmã. Até hoje ela usa a aliança da minha mãe no dedo.
:: Minha mãe não tomava bebidas alcoólicas. De vez em quando ela tomava um golinho de vinho ou de champagne, geralmente na ceia de Natal. Às vezes ela comprava uma cerveja escura e dividia comigo na hora do almoço.
:: Minha mãe nunca foi perfeita. Afinal, se não existem filhos perfeitos, porque haveria de existir pais perfeitos? Ela também nunca foi uma “mãe amiga”, nunca conversou abertamente sobre sexo e tampouco me deu conselhos amorosos ou profissionais. Mas ela era especial, uma mulher à frente de seu tempo, que venceu grandes dificuldades com pouco estudo e formou uma família estruturada com muito trabalho. Ela não dava moleza pra gente, eu tinha que ter boas notas, bom comportamento na escola e tinha que fazer as tarefas de casa na hora em que ela mandava. Ela era muito exigente e em muitas ocasiões eu a considerei injusta e malvada. Hoje, analisando o conjunto de sua obra, posso dizer que, como todas as pessoas normais desse mundo, ela tinha defeitos e às vezes passava da conta na exigência, mas se errou, foi tentando acertar.
:: Outra moda que eu era louca para aderir eram as roupas da Xuxa. Pois é, eu assumo que um dia, durante a minha infância, eu quis usar aquelas roupas horrorosas que sabe-se lá quem desenvolvia para as crianças sob a grife “Bicho comeu”. Graças a Deus minha sábia mãe também era contra e nunca atendeu aos meus pedidos. Ainda bem.
:: Nos meus tempos de criança o meu sonho de consumo era ter uma sandália Melissinha, mas minha mãe nunca deixou. Ela dizia que jamais ia pagar caro por uma sandália vagabunda de plástico que não ia durar nada e ainda ia me dar chulé. E eu morria de inveja das minhas amiguinhas que iam pra escola calçando Melissinhas coloridas.
:: Meu pai teve a brilhante idéia de batizar as três filhas com nomes nada convencionais e todos começando com a letra N. A coisa mais engraçada era quando minha mãe ia chamar uma de nós e misturava os nomes das três. Primeiro ela falava Nadcha, depois Neid e finalmente Lene.
:: Minha mãe era filha de descendentes diretos de italianos e portugueses. Ela tinha a pele bem branquinha, olhos verdes e o cabelo era liso e castanho. Era uma senhorinha dessas bem fofas que a gente vê pelas ruas. Os cabelos dela eram grisalhos, sempre foram. Um dia, minha irmã conseguiu convencê-la a pintar o cabelo. Foi uma pena que menos de um mês depois, ela tenha ficado doente e perdido os cabelos por causa da radioterapia. Aliás, esse foi um dos piores momentos pra mim: vê-la com os cabelos bem ralinhos, como se fosse um menino. Nos dias de frio a gente colocava um gorro de lã e dizia que era para esquentar as orelhas.
:: Uma das pessoas que mais me ajudou na época em que a minha mãe morreu foi a Beatriz. A Beatriz era a minha terapeuta. Nossas conversas semanais duraram pouco mais de um ano e me ajudaram muito a não perder completamente o eixo. Eu tinha perdido meu porto seguro, a pessoa que tinha mais cuidado por mim, e que me fazia pensar duas vezes antes de fazer alguma coisa meio errada. O primeiro ano depois da morte da minha mãe foi um período em que eu experimentei tudo o que surgiu, todas as festas, todas as viagens, todas as curtições. A Beatriz foi fundamental para me ajudar a permanecer com um pé na sanidade.
:: Acredito muito em Deus. Mas duvidei muito dele durante a doença da minha mãe. Perdi a conta das vezes que eu a abracei bem forte e pedi silenciosamente que Deus não a levasse de mim. Mas, numa noite de dezembro, ele a levou. E, durante muitos meses, eu parei de rezar antes de dormir. “Rezar pra quê?” eu pensava “quando precisei dele, ele não me escutou.” Depois de um tempo, que eu não sei dizer qual, minha religiosidade voltou.
:: Hoje a saudade apertou o meu coração. Estava organizando algumas coisas em casa e encontrei, no meio da bagunça, os óculos que a minha mãe usava. Me deu um aperto no peito. Meus olhos se encheram de lágrimas. Mas, ao mesmo tempo, eu senti aquele calor gostoso dentro de mim, um carinho muito profundo. Ah, mãe, que falta você me faz. Foi exatamente o que eu pensei naquela hora.
:: Está chegando o dia das mães e, na minha opinião, essa é a pior data comemorativa do ano. Pior até que o Natal. No Natal, pelo menos a gente tem outras pessoas para presentear, tem um clima de renovação, de aposta no futuro. E se já não bastasse a sensação de falta que me dá nessa época do ano, existe uma overdose de dia das mães na televisão, no rádio, nas ruas. Quando minha mãe estava viva, a gente não fazia uma grande comemoração, mas sempre comprávamos um presente pra ela. Lógico que eu, por ser a filha mais nova, ia sempre no embalo das minhas irmãs ou do meu pai. Depois que eu comecei a trabalhar me dava gosto escolher o presente que eu ia dar pra ela com o meu próprio dinheiro.
:: Essa semana eu sonhei com a minha mãe. Logo depois que ela morreu, eu sonhava muito com ela. Praticamente toda noite. Depois, os sonhos foram ficando mais escassos. Hoje em dia, raramente tenho sonhos com ela. O que é uma pena. Gosto de sonhar com ela porque depois que eu acordo, me dá uma sensação boa de que ela esteve por perto. Chego a sentir um calor gostoso no peito, uma mistura de amor e saudade.
:: Aos 22 anos de idade eu saí da casa dos meus pais para morar com a minha irmã em Curitiba. Fui a única filha que não saiu de casa para se casar. Minha irmã já morava em Curitiba há uns 2 anos com o marido e o meu sobrinho, e meus pais se encantaram com a cidade. Minha mãe decidiu que depois que meu pai se aposentasse eles viriam pra cá, pois ela já estava cansada da correria de São Paulo e queria viver com mais sossego perto da filha mais velha. Eu terminei a faculdade e vim antes deles para me estabilizar. E o período de adaptação foi horrível. Passei meses desempregada, numa cidade que eu não conhecia, sem amigos e vivendo dentro da casa da minha irmã. Eu ligava pra minha mãe toda semana. Às vezes eu chorava. Um dia ela me disse: minha filha, se você não arrumar um emprego até o final desse mês eu vou aí te buscar e te trago de volta pra casa. Consegui um emprego e ela não teve que vir me buscar.
:: Outro remédio que era comum minha mãe fazer era um “chá de canela” com açúcar queimado para curar gripe. Na verdade não era um chá. Ela caramelava um pouco de açúcar numa panela, jogava leite, canela em pau e mexia até dissolver o açúcar. Era uma delícia! O melhor remédio já inventado, na minha opinião. Segundo ela, tinha que tomar bem quente e não sair mais debaixo das cobertas.
:: Minha mãe tinha alguns remédios milagrosos feitos com ervas que ela plantava no quintal. Boldo para problemas estomacais, erva-cidreira que servia para quase tudo: resfriado, problemas no fígado e pra acalmar o bebê que tem cólicas. Outra planta que servia pra quase tudo era o bendito do matruz. Qualquer ferida, machucado ou luxação era curado com uma pasta feita de folhas de matruz amassadas e aplicadas direto na pele. Depois era só enrolar com uma faixa e ir trocando de tempos em tempos. Confesso: tinha um pouco de nojo daquilo porque o cheiro dessa planta é muito forte e me dava enjôo. Mas era tiro e queda. Acho, inclusive, que meu pai ainda tem pés de matruz pelo quintal.
:: Minha mãe costumava dizer que não criou a gente pra casar. Eu não entendia muito bem o que isso queria dizer até ir morar com o Roberto. No dia em que me vi ajoelhada no banheiro esfregando o azulejo, senti vontade de chorar. Pensei: o que é que eu estou fazendo aqui? E isso não significa que ela nos criou feito dondocas que não sabiam nem fritar um ovo. Muito pelo contrário, todas nós tínhamos responsabilidades em casa e ai de nós se não cumpríssemos as tarefas. Mas a diferença estava nos objetivos. Ela ensinou que era importante saber cozinhar para que a gente soubesse se virar sozinha e não simplesmente para agradar o marido. Ela dizia inclusive que se pudesse voltar no tempo, nem teria se casado. Minha mãe foi uma mulher de temperamento muito forte.
:: Minha mãe não teve muito estudo, na verdade ela lia e escrevia muito pouco, estudou até a 4ª série do ensino fundamental e olhe lá. Mas o principal valor que ela passou para nós foi a importância que o conhecimento tem nas nossas vidas. Ela costumava dizer: a única coisa que não tiram de você é o que você tem aí dentro da sua cabeça. Quando eu, a filha mais nova, terminei a faculdade ela disse: agora posso morrer em paz. Minhas filhas estão todas formadas.
:: O Roberto não conheceu minha mãe. Às vezes acho que foi melhor assim, do jeito que ela era exigente, provavelmente não aprovaria meu relacionamento com ele. Às vezes acho uma pena porque ela era uma pessoa muito especial e tinha muito que ensinar.
:: Minha mãe venerava os meus sobrinhos. Era sagrado minhas irmãs despacharem os moleques lá pra casa nas férias. E era uma mordomia de dar gosto. A comida preferida, coca-cola de latinha, cinema, passeio no shopping com direito a lanche no McDonald´s e muita, mas muita bagunça. Que pena que os filhos que um dia eu vou ter não vão aproveitar o que os meus sobrinhos aproveitaram.
:: Quando a minha mãe morreu eu passei mais ou menos um mês completamente perdida nos meus sentimentos. Ia vivendo um dia após o outro, fazendo as coisas que tinham que ser feitas, ligada no automático. Durante a doença dela, paramos nossas vidas e nos dedicamos exclusivamente a ela. Quando ela se foi, eu me vi com tanto tempo livre que não sabia o que fazer. Minha irmã recorreu à fluoxetina. Eu não sentia necessidade. Ia vivendo, enfrentando o cotidiano do que restou da nossa família. Tanto entrei no automático que eu perdi a vontade por certas coisas. Eu pensava: pra quê vou me casar? Pra quê vou ter filhos se a minha mãe não estará aqui pra participar comigo dessas coisas?
:: Eu nunca mais vou comer bacalhau, carne assada, arroz de forno e ambrosia. Não, na verdade eu até vou comer essas coisas. O que eu quero dizer é que eu nunca mais vou comer o bacalhau que a minha mãe fazia, a carne assada, o arroz de forno e a ambrosia com aquele gostinho de comida de mãe.
:: Sinto saudades principalmente dos cheiros e dos sabores. Um dia me dei conta de que existem certas comidas que eu nunca mais vou comer. E esse é o pior legado da morte, a sensação de nunca mais. Durante uma discussão com o Roberto, há algum tempo atrás, ele fez uma brincadeira dizendo que iria embora e que eu nunca mais iria vê-lo. Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu tive uma imensa sensação de vazio naquele momento e disse: “se você soubesse o que realmente significa nunca mais ver alguém, você não diria isso”. Na hora ele só pediu desculpas, mas depois ele confessou que não tinha entendido minha reação. Ele só entendeu quando o pai dele também morreu.
:: Faz 5 anos que a minha mãe morreu. E eu penso nela o tempo todo. Nem sempre com tristeza. Às vezes me lembro de coisas engraçadas, ditados que ela costumava falar, lições aprendidas na infância. Mas não existe um dia que eu não sinta uma pontinha de saudades.
:: A minha mãe era a companhia perfeita para fazer compras no shopping. Era impossível sair com ela e voltar de mãos abanando. Ela dizia: “a gente trabalha dia e noite e não pode nem comprar o que gosta?” Mas nem por isso ela era desligada com as contas. Controlava todo o orçamento da casa sozinha.
:: A gravidez inesperada da minha irmã do meio alterou de forma substancial a rotina da família. Enquanto a relação delas ficou estremecida, todos nós sofremos. Eu principalmente. Eu tinha uns 16 anos e no auge do desgosto da minha mãe, ela achava que eu seguiria o mesmo exemplo da filha desvirtuada. Resultado, eu que já tinha uma vida bem regrada, passei a ser praticamente vigiada durante 24 horas. A mais velha, que a essa altura já estava casada, tentou convencer minha mãe de que essa estratégia não ia funcionar e que acima de tudo, ela era bem injusta. Não adiantou nada. Na cabeça dela, ela não podia “vacilar” novamente. Coitadinha da minha mãe. Lidar com uma adolescente já é trabalhoso, imagina o que não foi lidar com uma adolescente indignada.
:: Aos 24 anos de idade minha irmã do meio foi mãe solteira. E a minha mãe surtou. Minha irmã tinha acabado de terminar a faculdade e todos os planos que a minha mãe idealizou para ela se desvaneceram. As duas ficaram praticamente toda a gravidez sem se falar direito. Minha mãe remoendo o desgosto e a Neid sentindo remorso. Um dia, a Neid, já com um barrigão de 7 meses, escorregou no banheiro e acabou com um corte na cabeça. Minha mãe se preocupou, mas o orgulho falou mais alto e ela não acompanhou minha irmã até o médico. Quem disse que ela era perfeita? Ninguém é.
:: Minha mãe tomou pílulas anticoncepcionais durante 8 anos depois que a minha irmã do meio nasceu. Até que por um descuido qualquer, que ela nunca nos contou, ela engravidou novamente e eu cheguei na família. A Neid morria de ciúmes de mim. Não deve ter sido fácil sair do trono de filha caçula e passá-lo para mim. Por conta disso, quando éramos mais novas ela falava muitas maldades. Dizia que eu tinha sido um “acidente” e que meu pai queria, na verdade, que tivesse nascido um menino. Um dia, depois que ele ralhou comigo por alguma mal-criação que eu fiz, falei sobre isso. Meu pai disse que não era verdade. Que ele desejou mesmo que viesse uma menina, porque seria complicado ter um filho depois de duas meninas quase mocinhas em casa. Ele não imagina o bem que me fez quando disse isso.
:: Reza a lenda da família que os meus pais tinham um sítio logo que se casaram e viviam da roça e da criação de animais lá no interior de Sergipe. Mas meu pai teve que se desfazer de tudo para salvar o meu avô das dívidas de jogo que ele acumulou. Nenhum outro irmão ajudou. Esse foi um dos motivos pelo qual a gente tinha pouca convivência com essa parte da família.
Com o dinheirinho que sobrou, eles foram pra São Paulo tentar uma vida melhor. Meu pai já tinha alguns irmãos vivendo lá e um deles vendeu para o meu pai um lote de terra. Minha mãe contava que foi uma época de muita dificuldade. O lugar era precário, não tinha asfalto, eles moravam num barracão no meio do terreno que, por sua vez, ficava no meio do mato e tinha poucos vizinhos a quem ela pudesse recorrer. Esse foi o outro motivo que fez com que a família do meu pai não fosse lá muito bem vinda na minha casa. Imagina o que foi passar por tudo isso sem ter um único amigo ou parente por perto e duas crianças pequenas? Minha mãe foi uma guerreira.
:: Minha mãe adorava o Roberto Carlos. Bom, nada diferente de todas as senhorinhas da idade dela. Um dia minha irmã mais velha ganhou um par de ingressos para o famoso show de fim de ano do Rei e deu de presente para minha mãe. Ela não pôde acompanhá-la e quem a levou foi o Carlos, aquele cunhado da cocada mole. Ah, com certeza foi um dos dias mais felizes da vida dela. Pelo menos esse sonho ela realizou em vida.
:: Tive um namorado que a minha mãe nunca aprovou. E mesmo assim ficamos juntos 4 anos. Um dia nós estávamos as duas assistindo TV e ela puxou papo. Me perguntou se eu via algum futuro com “aquele rapaz”. Era difícil entrar nesse tipo de conversa com a minha mãe. Ela tinha o hábito de dizer tudo o que pensava de maneira muito contundente. Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu disse que não queria conversar sobre isso e ela respeitou a minha vontade. Poucos meses depois eu terminei com ele. E com certeza foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida. É, a mãe da gente tem sempre razão.
:: Não sei se a minha mãe ia gostar do Roberto. Ela nunca gostou muito de nenhum dos meus pretendentes. Não sei se ela era exigente demais ou se eu é que escolhia mal. Talvez ela gostasse do jeito tranqüilo dele, ou talvez achasse ele quieto demais. Todo mundo acha isso, que o Roberto é quieto demais. Meu pai costuma dizer que ele não é gaúcho, que na verdade, ele é mineiro. Coitadinho, ele só é um pouco calado.
:: Minha mãe era um amor de sogra. Os meus ex-cunhados tinham a maior mordomia. Um dia o Carlos, ex-marido da Na, provou a cocada mole que a minha mãe fazia e gamou. A partir desse dia, ela fazia questão de fazer cocada mole só para o Carlos. E ai de quem roubasse um pouquinho! Ela colocava num pote e escondia bem no fundo da geladeira.
:: Quando meus pais se casaram, minha mãe tinha 23 anos. Me lembro que a minha irmã mais velha tinha uma superstição maluca. Ela dizia que tinha que se casar antes de chegar a esta idade, ou então, ela ia ficar pra tia. Mesmo tendo pouco mais de 10 anos de idade naquela época, eu já achava essa idéia um absurdo. Imagine, ficar pra tia só porque se casou com mais idade do que a sua própria mãe! Por falar nisso, eu fui a única das três filhas a não se casar de verdade, de papel passado, conforme manda o figurino. Às vezes acho que a minha mãe jamais aprovaria essa situação. Mas, pensando bem, apesar disso, eu sou a única das filhas que continua casada.
:: Quando eu era criança a minha mãe me chamava de “cabelo de fogo”. Não, eu não sou ruiva. E nunca fui. Mas fui a mais clarinha das filhas, a que tinha cabelos castanhos bem claros, com alguns reflexos que variavam entre o loiro e o avermelhado. É daí que veio esse apelido. Até que um dia deixei de ser chamada assim. Não sei o porquê. Acho que cresci e meu cabelo acabou se tornando castanho mais escuro pondo fim ao apelido.