sábado, 18 de outubro de 2008

:: Um dos piores momentos depois que a minha mãe faleceu foi voltar pra casa sem ela e encontrar todas as coisinhas dela por lá. As roupas, os remédios, os potinhos de comida, tudo aquilo que de uma hora pra outra se tornou desnecessário e sem sentido. Foi muito, muito triste tirar as roupas dela dos armários, separar para doação e esvaziar cada gaveta.
:: Outro dia fui ao supermercado e vi uma senhora muito, muito velhinha fazendo compras. E eu sempre fico tocada quando vejo uma pessoa já de idade bem avançada, cheia de dificuldade em fazer as coisas mais simples. Antigamente, eu pensava: como vai ser quando a minha mãe ficar assim, bem velhinha, com dificuldades em fazer as coisas? Pena que não foi possível ver isso acontecer.
:: Perder os pais é a lei natural da vida. É o caminho natural da humanidade. Mas a sensação que eu tenho é que a minha mãe foi arrancada de mim e por isso é tão difícil transpor tudo isso. Um dia ela estava bem, com a saúde de sempre, ativa, preocupada com a filha do meio, correndo de um lado para o outro com as atividade do dia-a-dia. No outro ela estava num quarto de hospital, se preparando para uma cirurgia. Em seguida, estava em coma induzido, na UTI. E na semana seguinte, estava parada numa cama, sem movimentos em um lado do corpo, totalmente dependente de nós. Quatro meses depois, ela se foi. E ficamos aqui, sem compreender bem como é isso tudo aconteceu com a gente.
:: Talvez eu precise falar sobre essas lembranças ruins para expurgá-las, para digerí-las e torná-las pequenas perto de uma vida inteira de coisas boas que existem para serem lembradas. Em muitas famílias, falar sobre o ente querido que já se foi, costuma virar um tabu. Não que isso aconteça entre nós, mas acho que existe ainda uma ferida longe de estar cicatrizada. Tenho medo de trazer à tona algumas lembranças quando estamos juntos para evitar momentos tristes, para evitar as lágrimas e principalmente para não trazer de volta aquela angústia que vivemos. Mas, de repente, falta um pouco dessa terapia em grupo, falta expurgar esses sentimentos que cada um de nós guarda dentro de si para que possamos seguir adiante sem que haja sempre um peso no coração.
:: Quando minha mãe faleceu tive a certeza de que eu jamais iria me recuperar desse acontecimento. Já se passaram quase 6 anos e muitas lembranças da sua doença, do seu sofrimento, das nossas privações ainda permanecem fortes. Quando será que vai parar de doer? Ou melhor, será que um dia vai parar de doer? Eu não sei. Só sei que em alguns momentos da minha vida essas lembranças vêem fortes demais e eu não consigo segurar o choro. Passa... Vai embora... Que fiquem somente as lembranças boas, por favor.
:: Um dia, na casa do meu pai, encontei alguns documentos, receitas e bilhetes escritos pela minha mãe. E fiquei ali lendo aquelas palavras soltas em pedaços de papel já amarelados pelo tempo. Pude visualizá-la escrevendo cada uma daquelas letras. É doloroso perceber que esse tipo de detalhe é a única coisa física que restou dela.

sábado, 13 de setembro de 2008

:: Ontem era para minha mãe ter completado 67 anos. Ela nasceu no dia 12/09 e faleceu no dia 09/12. Curiosa essa relação de números. Dá a impressão de que a vida dela tinha uma trajetória que foi cumprida do início ao fim. Parabéns, mãe. Feliz aniversário.